O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, manifestou hoje a expectativa de que as eleições legislativas de domingo na Guiné-Bissau permitam a constituição de um governo estável. "Acompanho com grande expectativa o que se passa na Guiné-Bissau (…). Esperamos que (as eleições) sejam um passo para a constituição de um pólo de poder estável no quadro das eleições e dos resultados", disse Luís Amado aos jornalistas no parlamento português.
Tagged under Governação Guinea BissauA Comissão Europeia recomendou hoje a abertura das negociações com Cabo Verde sobre facilitação na atribuição de vistos, contemplada no acordo de parceria celebrado entre as partes há cerca de um ano. Numa nota divulgada em Bruxelas, a Comissão indica que recomendou ao Conselho (aos 27 Estados-membros) a abertura de negociações para o estabelecimento de acordos sobre readmissão e facilitação de vistos, no quadro da parceira para a mobilidade estabelecida com Cabo Verde.
Tagged under Governação Cape VerdeO Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, PAM afirma que não teve qualquer resposta aos apelos de 140 milhões de dólares para alimentar o Zimbabwe e por isso teve que começar a cortar a alimentação a quatro milhões de pessoas. O PAM alerta que os abastecimentos alimentares vão esgotar-se completamente até Janeiro, a não ser que seja disponibilizado imediatamente um novo financiamento, uma vez que é preciso um mês e meio para fazer chegar os alimentos ao país.
Tagged under Governação ZimbabweA Renamo afirma ter recebido um acórdão do Conselho Constitucional, dando provimento ao seu recurso contra a desqualificação de três candidatos seus às eleições municipais de 19 do corrente mês. A medida foi tomada pela Comissão Nacional de Eleições, recorde-se, por alegadas irregularidades. As autoridades eleitorais todavia dizem que nada lhes foi ainda oficialmente comunicado.
Tagged under GovernaçãoOs resultados provisórios das eleições de domingo poderão ser conhecidos ainda esta semana, disse o presidente da Comissão Nacional de Eleições, Aladje Manuel Mané. Cerca de 600 mil eleitores foram às urnas no domingo para eleger um novo parlamento. Manuel Mané confirmou que as 10 assembleias de voto que não abriram ontem em Bissorã, no norte da Guiné, abriram hoje.
Tagged under Governação Guinea BissauPoucos duvidariam de que as identidades – étnicas, raciais, nacionais, religiosas, etc - são construções sociais que em muitos momentos fazem emergir sentimentos e reações profundas em todos nós. Seria exaustivo citar as tantas vezes em que fenômenos associados a defesa ou ataques a identidades específicas vieram à tona entre os séculos 20 e 21.
Em novembro de 2006 participei de um projeto denominado “A Cor da Cultura”, voltado a “capacitar” professores de ensino fundamental e médio de todo o país para a lei 10.639, de 2003, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira nas escolas. O projeto percorreu várias capitais e cidades brasileiras. Este relato é sobre minha experiência na cidade de Porto Alegre pelas razões que exporei abaixo. Antes de relatar estrito senso o que ali me chamou a atenção, cabe expor brevemente qual a metodologia utilizada neste projeto.
As relações raciais no Brasil se caracterizam ao longo da sinuosa história brasileira como um tema de ampla complexidade, exatamente por envolver estruturas do imaginário social, de valores de nacionalidade e pertencimento de grupo. Regra geral somos socializados sob a crença de que aqui, diferentemente de “alhures”, as relações entre os grupos raciais, mais especialmente “brancos” e “negros”, são de um outro tipo: mais leves, plásticas, harmônicas, sutis e raramente ou jamais violentas. O racismo permanece como uma ideologia estranha a nossa formação social, uma ideologia ou comportamento “importado” seja dos Estados Unidos ou África do Sul, ainda que centenas de pesquisas acadêmicas demonstrem sistematicamente o inverso disso e a imensa maioria das pessoas reconheça a existência de práticas racistas no dia-a-dia. Portanto, o projeto “A Cor da Cultura” estabeleceu como método de abordagem das relações raciais e dos conteúdos sobre a história dos africanos e dos negros no Brasil (sempre visto na relação com os brancos) tratar o tema de forma a mais lúdica e cuidadosa possível e sob o prisma pedagógico da interdisciplinaridade. Portanto, durante as atividades de “capacitação” utilizávamos brincadeiras, estimulávamos os professores a relembrar canções da infância, enfim uma série de estratégias que buscavam focar a questão sem necessariamente nomeá-la diretamente. Aos poucos, durante três dias de trabalho junto aos educadores, o tema das relações raciais surgia sob nova roupagem, sem os sentimentos viscerais típicos desse tema. Mesmo que posto de forma indireta pelos coordenadores, a idéia de se trabalhar dessa maneira era para não afugentar e chocar os educadores (as) brancos.
Perfil do público-alvo de POA
A população do Rio Grande do Sul é de maioria branca. Descendentes de portugueses, espanhóis, alemães, italianos, russos, ucranianos, poloneses, etc, compõe a população, em especial na capital, Porto Alegre. A população negra é minoritária, bem como a indígena. Era de se esperar que o professorado que iríamos trabalhar também refletisse essa composição “étnico-racial”. A “capacitação” foi realizada em uma universidade metodista e havia cerca de dez turmas. A turma que trabalhei junto com uma colega era composta por cerca de 95% de pessoas brancas. Os outros 5% eram de negros.
Tanto eu quanto a outra colega capacitadora somos negros. Essa informação é relevante pelo que segue. A relação dos professores e professoras (estas, majoritárias e com idades que variavam entre 30 a 50 anos) era de, no mínimo, um certo cuidado e distanciamento calculado em relação a nós. Na realidade, percebemos logo de início que muitos estavam ali devido ao caráter coercitivo da convocação da secretaria de educação de participarem da capacitação para se “atualizarem” no conteúdo da nova lei. Algumas participantes brancas não ocultavam o fato de que não estavam gostando de estar ali sendo “capacitados” por dois intelectuais e ativistas negros e muito mais jovens que a maioria. Quatro ou cinco professoras simplesmente não participavam das atividades propostas, ficando sentadas quando pedíamos que levantassem para realizar alguma atividade lúdica ligada as dinâmicas. Uma delas, descendente de italianos, fazia questão de demonstrar que estava ali a contragosto. No primeiro dia, participou de parte das dinâmicas, sempre com muita má vontade. No segundo dia, estava mais receptiva e conseguiu sorrir tanto para os colegas quanto para nós capacitadores. No terceiro dia, estava completamente integrada as atividades e ria de qualquer coisa.
Apesar desse exemplo, fiquei atento quanto aos olhares que lançavam sobre nós. Algumas olhavam com um misto de curiosidade e admiração e outras nos fitavam com muitíssima desconfiança e receio. Afinal, como evidenciado em alguns relatos, tinham pouco contato com alunos negros em suas escolas, quiçá com um conteúdo afirmativo e assertivo em relação as identidades e histórias desses alunos.
“Sou um cidadão afro-brasileiro e ....”
Dia após dia íamos conquistando a simpatia das professoras quanto a importância da temática das relações raciais. Temas como inferiorização das crianças negras nos livros didáticos, discriminação no espaço escolar e políticas de ação afirmativa surgiam e eram problematizados por alguns e diplomaticamente evitados por outros. No terceiro dia, na parte da manhã, trabalhamos com o que chamávamos de “valores afro-brasileiros”. Na concepção do trabalho de “capacitação”, tais valores estão arraigados na cultura nacional e perpassam todas as pessoas, independente de suas identidades raciais e/ou étnicas. Após uma série de debates críticos quanto a esta “revelação”, sentíamos que os professores estavam quase em sua totalidade “transformados” para incorporar em suas práticas pedagógicas essa nova dimensão do ensino, ao qual foram sistematicamente ensinadas a rejeitar. Pois bem. No início da parte da tarde, no último dia, sugerimos uma grande roda (um dos valores afro-brasileiros intensamente enfatizados, a circularidade). Mãos dadas, atentos ao contato com o outro e atenção, tudo isso para que pudéssemos trabalhar o respeito as alteridades. Sugerimos que cada um de nós, inclusive os capacitadores, fizessem o seguinte “ritual”: desse um passo a frente, dissesse seu nome e afirmasse que era um cidadão (ou cidadã) afro-brasileiro(a). Era desta maneira que procedíamos desde as capacitações anteriores em outras cidades. Só que no caso de Porto Alegre e em função do que já havíamos observado, resolvemos acrescentar mais um elemento a esta atividade: a afirmação da identidade racial ou étnica.
A dinâmica com os valores afro-brasileiros fazia com que todos se vissem pertencentes uma “herança afro-brasileira”, seja no modo de falar, de vestir, de pensar, de se comportar, de agir, etc. Todos entenderam que isso não era o mesmo que afirmar-se negros ou negras. Partilhar dessa “herança afro-brasileira” é estar conectado com valores que provém do continente africano e seus povos trazidos à força para o Brasil. Até este momento não questionamos o fato de que essa “herança” é vivida e percebida de modos diferentes.
De volta a roda, a circularidade, pedimos para cada um dar um passo a frente e dizer seu nome, de ser afro-brasileiro e afirmar sua identidade racial. Eu iniciei a roda, propositalmente. Disse: meu nome é Marcio André, sou um cidadão afro-brasileiro e ... negro. A participante do meu lado disse: sou fulana de tal e ... da paz! A subseqüente disse: sou cicrana de tal do amor e da felicidade e assim sucessivamente. Com a exceção dos participantes negros (todos os negros se afirmaram negros) e de uma participante branca (que afirmou em alto e bom som que “tinha orgulho de ser descendente de alemãs) o restante da turma mencionou todo e qualquer adjetivo existente e que escancaradamente fugia de uma suposta identidade racial e/ou étnica. Para ser franco, a metade das professoras brancas ali presentes afirmaram-se “mestiças” de indígenas (chamados bugres naquela região) e de negros. Mesmo assim com um claro constrangimento, já que suas afirmações contrastavam com o que um percebia do outro, ou seja, a total e inegável brancura.
A mestiçagem é um ao mesmo tempo um mecanismo de alívio e de fuga quando em contextos de reflexão das identidades raciais e dos lugares ocupados por cada um é sugerido que escolham onde se situam. Em termos gerais, brasileiros brancos não gostam de ser confrontados com a “verdade” de suas identidades raciais. Para isso acionam a via do “sou mestiço” na exata proporção de negar suas origens européias. Tratando-se se origens, todos os participantes brancos, sem exceção, lembraram e celebraram durante as dinâmicas suas origens européias como muito importantes em suas vidas. Nesse caso o referente branco não surgiu como problema. Pelo contrário.“Branco, eu?”
Ao final da atividade, olhei para minha colega de trabalho e percebi o mesmo espanto quanto a evitação coletivamente orquestrada dos educadores em reconhecer suas identidades brancas, portanto o lugar psicológico, econômico e social que ocupam na sociedade brasileira. Pensei: “é, não deu certo. Boicotaram ou não entenderam a atividade. Será porque?”. Desfeita a grande roda, dois ou três minutos depois veio em minha direção uma educadora em prantos. Logo em seguida mais uma e mais outra. Quando me dei conta havia cerca de seis educadoras chorando intensamente, lágrimas a correr feito chuva. Algumas me abraçaram, outras somente me questionaram porque eu havia feito isso. Perguntei: “feito o que?” Como se realmente não soubesse o que estava em jogo. E uma delas me disse: “Isso!!! Você nos fez olhar para o que realmente somos”. E ai, só para ver o chão dessa verdade, perguntei: “vocês são o que?” Silêncio, mais lágrimas, abraços, fim da atividade.
Ao propor esta atividade não tínhamos o propósito de gerar mal-estar ou qualquer tipo de constrangimento e sim de suscitar uma reflexão no grupo que sabíamos dolorosa e historicamente camuflada: o poder oculto da branquitude.
A branquitude é um lugar. É um status ocupado pelas pessoas brancas e herdada de relações sociais e, fundamentalmente, raciais do passado. Não chegaria ao ponto de afirmar que a branquitude teria o poder de explicar ou justificar toda uma ordem social ancorada na desigualdade entre brancos e negros. Contudo, creio que sem levarmos em consideração as ramificações, reproduções e capacidade de transmutação discursiva assumidas pela branquitude não há como entendermos as hierarquias raciais no Brasil. Como afirma Cheryl L. Harris a branquitude é uma propriedade, continuamente sustentada pelo racismo estrutural de sociedades como a brasileira. Mais do que divisões ou lutas de classe, os privilégios advindos do poder da branquitude tem como fundamento as representações e exercício de poderes racializados.
Seria necessário uma extensa sociologia, antropologia e psicologia social a fim de compreender exatamente qual o papel desempenhado pelos “poderes racializados” ao qual me refiro. Uma das evidências desse poder se expressa na própria história das ciências humanas e, em especial, das ciências sociais no Brasil. Os africanos, depois seus descendentes e todos os grupos étnico-raciais não-brancos foram objeto de investigação sociológica e antropológica exaustivas. Os brancos não. A brancura – condição e auto-realização do ser branco – sempre estiveram ocultas das lentes investigativas e dos olhares de questionamento científico. O poder de racializar é também o poder de atribuir nomes e sentidos ao mundo social e de dominá-lo. Pensemos na história da etnologia no Brasil. Cosmologias, práticas religiosas, rituais, segredos culinários, lógicas de parentesco, ou seja, todo o universo indígena minuciosamente desvendado e revelado para as mentes e mundo ocidentais e praticamente nenhuma palavra ou retorno sobre os segredos e idiossiocrasias do mundo ocidental – leia-se branco – para os povos indígenas. O que isso gerou na prática? Silenciamento, eternização do poder racializador e simbólico do mundo branco sobre o mundo indígena.Branquitude como herança e destino
As lágrimas, os prantos e o desespero daqueles educadores brancos é somente uma metáfora ou uma atalho para começar a tirar os véus que cobrem a branquitude ou que cobrem nossos olhos para percebê-la e captá-la como instrumento de poder. Praticamente todos os índices sociais expõem a mesma realidade: brancos acumulam mais vantagens do que negros há décadas, seja em termos econômicos ou sociais. Isso em si não é nenhuma sentença para colocar grupos uns contra os outros, tampouco pessoas contra as outras. A branquitude está para além das pessoas brancas, do mesmo modo que os efeitos negativos da racialização provocam inúmeras desvantagens aos negros – pretos e pardos de acordo com o censo oficial. Um sujeito pode não querer ser vinculado a uma herança africana por diversas razões, porém devido ao fato de ter características que o situam no grupo negro será racializado do mesmo modo que um ativista do movimento negro. Não me refiro aquele que mais do que negar camufla sua identidade racial. Falo daquele(a) que foge de sua “negritude” como o diabo da cruz. E há muitos! Portanto, o fato de pessoas brancas usufruírem do legado da braquitude não faz com que automaticamente sejam livradas dos efeitos sociais perversos gerados nas dinâmicas do capitalismo globalizador e mesmo que militem a favor da manutenção dos privilégios brancos. Milhares de brancos são vítimas da pobreza e indigência no Brasil e isso é mais do que suficiente para concluirmos que há mais elementos por trás das hierarquias raciais do que supúnhamos. Mesmo assim os brancos pobres usufruem de mais condições de mobilidade social do que os negros em termos gerais. Nos últimos anos vários estudos foram produzidos que evidenciam tais afirmações. Para uma breve análise disso consultar “Desigualdades raciais, racismo e políticas públicas: 120 anos após a abolição da escravatura” produzido pelo IPEA .
Uma das saídas para frear a reprodução social da branquitude é através da construção de políticas públicas em prol da igualdade racial, tais como as políticas de ação afirmativa em curso no país. Por outro lado, trabalhos pedagógicos e de sensibilização junto a públicos brancos, sejam eles educadores, alunos ou formadores de opinião auxiliam muitíssimo na construção de sociabilidades menos perversas do ponto de vista das relações raciais. Não creio ser saudável para uma criança ou adolescente brancos que cresçam imaginando que são superioridades ou melhor dotados intelectualmente do que crianças negras. Tampouco não é saudável que crianças negras vejam seus horizontes intelectuais e cognitivos achatados pelas crenças que herdaram sobre suas supostas inferioridades . Frantz Fanon dizia que era doente o branco que acredita na sua superioridade do mesmo modo que um negro que crê na sua inferioridade.
A experiência de Porto Alegre é ainda mais sintomática porque mostra ainda que em um micro universo de sala de aula, atitudes e comportamentos comuns a vários educadores Brasil afora. Sublinearmente seus lugares de brancos, sua brancura, foram sistematicamente “ensinados” a crianças brancas e negras, com raras exceções a esta regra. Ensinar a partir do lugar da branquitude não é o mesmo que ser racista. Entretanto, é uma postura que no limite reforça o racismo em termos simbólicos, discursivos, imagéticos e psicológicos ao invés de enfraquecê-lo, denunciá-lo e transformá-lo .* Márcio André é Cientista Político
* Por favor envie comentários para [email][email protected] ou comente on-line em http://www.pambazuka.org
Tagged under GovernaçãoA narrativa africana de língua portuguesa.
Por Jurema OliveiraAssim como o camponês aprende a trabalhar a terra, o poeta aprende a trabalhar com a palavra, aprende a não dizer demais e a não dizer de menos, aprende a sugerir. A poesia não deve fazer mais que sugerir; ela é um compromisso entre a palavra e o silêncio, não o silêncio de quem não tem nada para dizer, mas o silêncio que é o sumo de muita coisa. Então o poeta traduz. Ele é uma boca, e deve ser a boca daqueles que não têm boca (BARBEITOS, 2004, p.8).
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfaz a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
(VINICIUS, 2001, p.41)O presente trabalho tem por objetivo ler criticamente o processo de construção poética de Adriano Botelho de Vasconcelos, autor de Voz da terra (1983), Vidas de sonhar (1975), Células de ilusão armada (1983), Anamnese (1984), Emoções (1988), Abismos de silêncio (1992), Tábua, Grande Prêmio Sonangol de Literatura (2003), Luanary (2007) e organizador de diversas coletâneas de conto e de poesia. Cabe ressaltar, no entanto, que apesar do destaque dado aqui ao projeto estético de Adriano Botelho de Vasconcelos, o caminho trilhado por diversos poetas e romancistas africanos de língua portuguesa é marcado por imagens insólitas oriundas de experiências violentas durante a colonização e pós-independência, no processo de consolidação do Estado / Nação.
A força da narrativa e da poesia africana de língua portuguesa está em linhas gerais envolta num universo repleto de elementos retratadores do substrato violência oriunda dos fenômenos sociais e políticos. Esta marca ora se apresenta de forma sutil, ora de forma explosiva, ora mítica em conflito decorrente do descompasso dos valores da tradição, transformados abruptamente durante os anos de colonização e guerra civil.
Autores como: Boaventura Cardoso, João Melo, Arlindo Barbeitos, Isaquiel Cori (Angola); Mia Couto, Paulina Chiziane, Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho (Moçambique); Abdulai Sila (Guiné Bissau); Dina Salústio, Vera Duarte (Cabo Verde); entre outros exploram em sua poesia ou romances o duplo sólito / insólito na busca pelo som que possa perpetuar e dar forma e movimento a idéia de liberdade, que não nasce da pedra, mas das ações humanas.
O suporte teórico usado aqui foi a visão acerca da violência pensada por Hannah Arendt em Sobre a violência e o ensaio sobre a imaginação da matéria de Gaston Bachelard. Sobre a violência representa um repensar o tema violência, tão recorrente no século XX, que presenciou conflitos como: a rebelião estudantil de 1968, a guerra do Vietnã e, no âmbito do debate / discussão, a violência apontada pela nova esquerda como uma forma de resistência à opressão, em especial no processo de descolonização dos países africanos de língua portuguesa. O fenômeno violência nasce do desejo de dominação de um homem sobre todos os outros homens, mas de acordo com Hannah Arendt a violência destrói o poder, não o cria (ARENDT, 2001, p.8).
O discurso poético de Vasconcelos repousa ora na imaginação material, ora nos substratos da violência. As vozes representadas na poesia deste escritor guardam as marcas insólitas provocadas pelas ações violentas desmedidas. Esta prática independe de números, mas quando ela encontra respaldo no conjunto, no coletivo, torna-se mais perigosa. Sendo assim, tanto nas práticas militares quanto nas revolucionárias a idéia de individualidade desaparece e dá lugar a uma espécie de coerência grupal, um sentimento intenso de união, de vínculo aos princípios básicos da violência pela violência, que encontra motivação no ódio profundo contra os seus opositores, mas também contra os seus pares.
A violência, um instrumento por natureza, “é racional à medida que é eficaz em alcançar o fim que deve justificá-la”(ARENDT, 2001, p.57). O uso desta estratégia pode reformular o sistema vigente, mas não significa uma revolução ampla e muitas vezes serve para desintegrar, desfazer os elos unificadores das práticas sociais e políticas, chegando a atingir a barbárie, o caos total, abrindo no seio da sociedade um “abismo de silêncio”.
Desta forma, a violência neutraliza toda e qualquer possibilidade de os homens se organizarem e viverem em harmonia e conseqüentemente abre espaço para o luto visível nas imagens refletidas num espelho d’água embaçado.Diante disso, pode-se dizer que a escrita poética reinterpreta com imagens díspares, mas também reflexivas as práticas e os efeitos das ações violentas. A escrita literária permite o distanciamento da vida cotidiana, a suspensão dos acontecimentos. Ela põe em movimento outro sentido, desloca as falas de seu lugar habitual, dando nova roupagem à idéia de apagamento, de censura promovida pelo discurso oficial e abre espaço a circulação da heterogeneidade identitária e discursiva.
As forças imagéticas da mente trilham dois caminhos distintos. Um caminho encontra sua pulsão no novo, na surpresa, no admirável, enquanto que o outro caminho tem sua sustentação escavando a cavidade do ser para explicar aquilo que é mutável e imutável, interior e exterior da imagem guardada nos lugares mais remotos da memória:
Abra-se a cortina de coisas passadas e sem o artifício de nenhum segredo sem essa falta de lugar para a terra do nosso panfleto reclamando imagens de gaivotas recolham-se nossos bens antigos nos estuários subterrâneos onde deságuam os veios da nossa memória onde tudo se vive sem se descobrir a solidão (VASCONCELOS, 1996, p.15).
A imagem da causa formal/sentimental motivada pelos desejos do coração opõe-se a uma outra oriunda da causa material. Esta imagem material deve ser selecionada, separada das recordações recentes, pois ela tem um peso, uma consistência para alimentar o devaneio criador e se distinguir do fato superficial, das motivações do coração que impulsionam a busca pela palavra ideal na construção do discurso poético. As energias diversas provenientes da causa formal e da causa material estão intrinsecamente ligadas, logo separá-las completamente é quase impossível: O devaneio mais móvel, mais metamorfoseante, mais totalmente entregue às formas, guarda ainda assim um lastro, uma densidade, uma lentidão, uma germinação. Em compensação, toda obra poética que mergulha muito profundamente no germe do ser para encontrar a sólida constância e a bela monotonia da matéria, toda obra poética que adquire suas forças na ação vigilante de uma causa substancial deve, mesmo assim, florescer, adornar-se. Deve acolher, para a primeira sedução do leitor, as exuberâncias da beleza formal (BACHELARD, 1997, p.2).
O sujeito de criação precisa ter um domínio preciso da palavra, o uso conciso dos termos e concretude para expressar os mais profundos sentimentos recompondo, assim, o cenário material de um tempo em que “o silêncio é um mar perdido na boca dos peixes”(VASCVONCELOS, 1996, p.22).
A obra poética que mergulha na cavidade do ser pode não produzir as flores da leveza, mas funda um novo referencial imagético. Desta matéria floresce flores negras, com o peso e as cores escuras que lhe são peculiares. As imagens impactantes produzem no leitor encanto e desencanto, alegria e sofrimento, leveza e densidade. Por mais que se queiram separar as forças imagéticas produzidas pela mente, o campo poético se encarrega de unir causa formal e causa material. A motivação do sujeito de enunciação advém geralmente da necessidade de expor sentimentos submersos na memória:
A morte pode com salivas de silêncio apagar o nome das coisas, só a ausência aniquila o sangue até as velhas atarem uma canção nos terços dos destinos. O meu nome é tinteiro derramado no cimento da madrugada. Vejo tombar a guitarra dos meus sonhos e o nome das coisas, como uma cor funda de esquecimento que desfaz em pó as gaivotas da existência, com uma velocidade que só deixa o poder das mães serenar a aflição do futuro, nenhuma palavra memoriza imagens, tudo se apaga como um sino que recebe o vazio mais fundo da música (VASCONCELOS, 1996, p.22).
A valorização da matéria se dá em dois planos: no plano mais profundo e pelo impulso. O primeiro exige do poeta um trabalho no cerne da imagem evocada, enquanto o segundo resulta das sensações sensíveis provenientes das emoções: “No sentido do aprofundamento, ela aparece como insondável como um mistério. No sentido do impulso, surge como uma força inexaurível, como um milagre”(BACHELARD, 1997, p.2). Desta forma, lembrar significa recuperar as experiências individuais e coletivas. A matéria lembrada, oriunda da imagem profunda, precisa ser trabalhada para expressar ao leitor toda sua substância ao passo que a outra é resultante das imagens poéticas operadas para dar um colorido, uma leveza aquela resgatada do interior do ser.
Vasconcelos busca seu devaneio criador numa matéria líquida, a água solidificada na imaginação profunda, com regras próprias, específicas. O poeta procura entender o descompasso do universo material a partir dos princípios, da formação do mundo visível e para corporificar esta idéia mergulha no interior da matéria primordial, depreendendo, assim, na linguagem poética o destino dos homens metamorfoseado numa água que se esvai e deságua pelos veios da memória:
Esse choro que desde há muito tocava as pálpebras: o dia que a morte destruíra, notícias de invasões, doenças e algemas que apodreceram o sangue... tudo visto por dentro num desequilíbrio de anseios. Batem à porta. Nenhum vinho de palmeira manteve o cemitério debaixo dos panos de imbondeiro. Os caixões incham diante da porta, há uma ferida nos dedos: o medo. È à porta de nossas casas que os dias saem do sítio dos epitáfios e o vinho de palmeira deitado por nossas mãos arranja o sono a meio da primavera. Os nomes são um lugar que a morte dominou por dentro da dança erguendo-os em pedra. Esse choro que desde há muito tocava as pálpebras (VASCONCELOS, 1996, p.28).De acordo com Bachelard “toda água viva é uma água que está a ponto de morrer”(BACHELARD, 1997, p.49). Esta matéria viva tem como destino a perda do brilho, o entorpecimento e conseqüentemente o apagamento da existência, sendo assim, a imaginação da água profunda se define como a absorção do sofrimento, temática explorada por Vasconcelos em sua poética.
Logo, detectar o caminho, a construção do sólito e do insólito na obra deste autor é também verificar os contornos imagéticos da violência geradores da ausência de vida e produtores da estética proveniente do devaneio da morte. As ações violentas acabam por fundar no âmago de uma água clara as marcas sombrias, instauradoras de diversas figuras e fúnebres murmúrios, registrados na folha de papel:Ah! Se tudo pudesse ser recomeçado no mesmo barro que fez toda a tua infância e se pudesse ouvir o murmúrio das mães que são quem mais sentem nos olhos os sinais dos destinos que por vezes ganham forma de esquife numa simples chávena de café. E vamos deixando mais desconfianças e ciladas para que não se ame os irmãos que estiveram sentados à mesa do mesmo soba. Não podemos comparar as realidades cada vez mais tudo parece um ensaio e não se pode saber se o que se diz faz parte de um belo engano. Não é fácil preferir o interior de nós mesmos. Os espelhos ocupam os espaços e toda a figura já foi um avesso ou o mais perfeito disfarce. Faltou-nos um pincel para deixar os sinais nas paredes como fizeram os apóstolos de todas as tragédias. Não se pode virar pelo contentamento uma página sem que lhe acompanhe em vergonha o sangue e uma pressa em querer que a amnésia solte a piedade. Pelo coração se pode perdoar assim como no pasto no Humby quem mais envelhece são as cabras que comeram as pedras e puderam no lugar da luz e da sua higiene levar os homens para a calçada em madeira antiga que fizeram a nave dos mares (VASCONCELOS, 2004, p.48).
Pensar os processos variáveis, móveis, distintos que envolvem a imaginação da matéria implica ler as representações simbólicas que consolidam o devaneio criador. Vasconcelos encontra a unidade imaginada nas experiências de um sujeito poético que preenche o vazio deixado pela violência e violação dos direitos humanos num tempo de utopias sonhadas.
Este vazio são os sinais refletidos num espelho que não condiz com a teoria do espelhamento social de organização para garantir o equilíbrio da vida comunitária. Segundo Boaventura de Sousa Santos, “são os espelhos que, ao criar sistemas e práticas de semelhança, correspondência e identidade, asseguram a vida em sociedade”(SANTOS, 2002, p.47-8).
Desta forma, recorrendo à força da narração em discurso direto Vasconcelos atualiza o episódio, fazendo emergir da situação a personagem, tornando-a viva para o ouvinte, à maneira de uma cena teatral, em que o sujeito poético desempenha muitas vezes a função de indicador das falas. Estas, na reprodução direta, ganham naturalidade e vivacidade, enriquecidas por elementos lingüísticos tais como exclamações, interrogações, interjeições, vocativos e imperativos, características típicas da oralidade. O universo estético do autor angolano se assemelha ao do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto, ambos valorizam a estrutura poético-narrativa, recurso próprio do romance.
As vozes evocadas sucumbiram e só pela imaginação se materializam. Sendo assim, o eu poético nos apresenta seus personagens:
Nas bandejas de prata vejo mulheres que seguram as terrinas de xaropes feitos de muitas ervas que cresceram na mão do Diabo. O vinho
– apesar da intensa beleza do cálice –
conheço-o dividido porque os mortos que não foram enterrados não querem ser esquecidos e através do seu néctar deixam âncoras nas mazelas da sanzala. Podes tirar-me através do batuque a tarde como se desfaz um bordado, pois é nessa altura que cuido de desfazer-me das desilusões quando o céu não serve para aumentar a imortalidade. Oh, amor!... Tombaram os homens primeiro que os sonhos como se tivéssemos como proveito uma série de desgraças que não podem fazer uma desculpa, mas só os sonhos que partem da lucidez podem encontrar um novo barro que aceite as mãos de um Deus mais perto de nós (VASCONCELOS, 2005, p.44).
Resgatando aqui a visão de Bachelard acerca das águas densas, pode-se dizer que são essas águas espessas, sólidas e profundas a substância base da criação deste poeta. O destino das águas é escurecer, tornar-se pesada, mas é dessa água turva, inerte, imagem recorrente na poesia deste autor, que se percebe os movimentos dos sonhadores:As mães levantam as fotos dos filhos e o dia treme perto do mais longo instante e o horizonte que sempre fez os sonhadores e os amantes fica coberto de camisas com vestígios de vida. É o requinte da ilusão que faz o enlace sobre ti de duas gaivotas. Outra foto com o Aires ocupa o que mais se dispõe com a infância porque todo o gesto passa pela identidade do que sempre se perde e a aurora é uma trave sobre o horizonte que se deixa enganar por quatro paredes: “Oh, rei grande, vens devolver os nossos filhos sem que em habilidade todo o cemitério nos faça permanecer sentadas nos passeios dos manicômios?”. “Oh, pobres mães, até parece que estais muito perto do horizonte, só aí a vida se faz num barco veloz e forte e parece uma nave habitada. A sua trajectória é fixa como um leão dispara a sua energia numa só impala que parece embrulhada numa folha de prata que parece o brilho mais forte do dia. Levantam poeiras em caracol e deixas a minha ira mais viva do que a força das vossas dores que não entendem como numa mesa se faz o jogo”. (VASCONCELOS, 2007, p.48).
O sujeito poético evoca as lembranças submersas na memória para fazer circular as experiências de toda uma coletividade envolta num “abismo de silêncio”. O fio condutor da poesia de Vasconcelos se consolida com base na imaginação das “águas dormentes” que revigoram as imagens substanciais, geradoras do alimento da imaginação no abafamento da existência imóvel como a dos pássaros aleijados:
da água nasce a língua da tribo, espelho claro de música libertando a imagem sob calcanhares que mantêm aleijados os pássaros. Há um som de flauta que faz as mulheres oferecerem-nos uma esteira e mel. Quando se morre seca sempre um rio apertado no fundo da terra. Eis um sino e um martelo de falsos comícios que lançaram de modo cínico estéreis utopias. (...) Só a liberdade poderá ainda que desapossada revelar a beleza da água como uma lua potente que ensaia o peixe e deixa uma renda à volta do namoro para que nenhum gesto de pêsames aconselhe o valor doentio e pobre do luto que se consolida com molduras de silêncio (VASCONCELOS, 1996, p. 9).O par morte/vida constitui-se numa dualidade perfeita para se ler a obra de Vasconcelos. A imaginação, faculdade de criar mediante a combinação de idéias, encontra na poética deste escritor o espaço profícuo para alimentar a construção de imagens díspares envolta num cenário preenchido por uma água de tonalidades variadas, capazes de fazer brotar o devaneio criador.
Assim, as experiências insólitas recuperadas na linguagem se materializam na força que emana da palavra. Logo, “as águas das turvas errâncias”, matéria privilegiada na obra deste autor, constitui-se “substância-mãe” na busca pelo som capaz de calar a dor e valorizar a vida:
há uma palavra que temos que libertar deixar que seja um slogan de luz, que obrigue os jornais a incluí-la na primeira página uma palavra que saiba das cadeias das nossas frustrações, uma palavra que ao ser lida desperte uma música capaz de acalmar o homem.Não é uma palavra guardada nas pondas das bessanganas, envelhecidas nos oratórios que amareleceram de dúvidas o desejo dos homens é uma palavra amplificada de luz capaz de impedir as miopias que ensaiaram os tropeços da manhã. Essa palavra nunca foi lida no exílio das nossas angústias, nem nos casamentos negados de vinho que aceleram a rumba da alegria e por mais incrível que pareça nunca foi poder (VASCONCELOS, 1996, p.10).
Diante disso, o eu poético convoca a coletividade para uma ação sólita: “Reúnam os homens para resolverem a unidade da tribo porque se as águas se apartam em turvas errâncias veremos germinar raízes de pedra e áscuas nas praças triunfo da cinza anulando a hidrografia dos mitos” (VASCONCELOS, 1996, p.9).
Esta reunião, no entanto, somente é possível no plano imaginário, pois todos os personagens convocados desapareceram num “abismo de silêncio”. Se “o conto da água é o conto humano de uma água que morre”(BACHELARD,1997, p.49), é desta água morta que Vasconcelos retira a matéria de sua criação poética. Num processo inovador, ele constrói o cenário capaz de unir o sólito e o insólito, a vida e a morte, pois:Lá fora o mundo é igual a uma África que vem com os seus heróis que sabem que o ouro limpa tudo, mais do que a água que escorre pelo chão da casa mortuária: “É uma água pesada no seu longo percurso mas que leva em boa guarda e aleluia a vida para tornar mais pura a terra” (VASCONCELOS, 2005, p.136).
As experiências passadas mantêm-se retidas na memória e elas podem ser recuperadas no presente por meio da linguagem. O corpo guarda dos tipos de vivências: uma ligada à memória-hábito que faz parte de nosso adestramento cultural, a outra se define como imagem-lembrança. A memória-hábito constitui-se num conjunto de conhecimento adquirido pela observação e pela repetição de movimentos ou palavras. Ela se faz necessária à vida comunitária, à socialização. A outra, a imagem-lembrança, ocupa a área profunda da mente e ao ser evocada se corporifica de forma única, irreversível.
A poesia de Vasconcelos nasce dessa experiência latente nas zonas as mais profundas do psiquismo. Essas impressões se assemelham a um palimpsesto, material antigo, raspado várias vezes, dando o tom, o colorido às representações, às manifestações das essências escondidas nas profundezas das substâncias da matéria:
O rei não pode esperar da noite toda a ousadia da esperança como se, por este lado das surpresas e de quantos mais terços se endireita a aurora, lhe caiba outra luz. Todo o intervalo serviu para vermos se ainda poderíamos acertar com azagaias o teu coração. E mataste o teu melhor irmão para que toda a noite passasse para dentro de nós. As lavras de mandioca aumentaram a safra na mesma proporção que os mortos. Ainda tentaram escolher o melhor filho para o acompanhar, prepararam cinzas e ventos. Os mortos de outras guerras mais antigas estavam tontos nas poças de vinho (VASCONCELOS, 2004, p.98).
Os acontecimentos submersos na matéria adormecida pelo sono profundo são o substrato, o que serve de suporte para uma outra existência, o sonho/poético. Este transforma os sinais contemplativos advindos do sono em elementos sustentadores do projeto literário de Vasconcelos.
O sono profundo oferece um amálgama de sentimentos, visões, lembranças constituidoras do discurso crítico e irônico do escritor. Como se pode constatar no trecho retirado do poema: “Um reino apesar dos sabres mais afiados”:
“Um reino apesar dos sabres mais afiados guarda-se melhor com o excesso de bondade”,
fez-te lembrar o velho Tiba quando te foi íntimo
o sangue das vítimas na Cadeia de São Paulo.
Só o coração sabe afeiçoar a irmandade porque tens
de saber como tuas mãos, apesar de exímias a medirem
a espessura das pepitas d’oiro, servirão mais se puderem com a ajuda dos joelhos e seu chão de pedras lavar os pés dos doentes
do Sanatório. Ainda que enxugues os seus pés, percorras
sozinho o corredor onde Deus brinca
com o sol e seus curtos lugares, terás de vestir
a batina de sua vida, ouvir como em ti se faz
sem amnésia a identidade dos outros (VASCONCELOS, 2007, p.19).As imagens do sono despontam na poesia de Vasconcelos como um tipo de predisposição, evocação que redimensionam por via da memória/poética o clima de tempestade, das águas revoltas. Neste sentido, o sono provoca e projeta a criação do escritor para um tempo de sonho desfeito e refeito no espaço literário para acolher “aqueles que não têm boca”.
Desta forma, a busca pela linguagem artística aguça no escritor certas aptidões, certas vocações para o sobrenatural e o invisível, certa percepção do sentido oculto das coisas inertes. Tão bem explicitadas no trecho retirado do poema “Oh, meu rei, o Tiba diverte-te com palavras”:
(...) A morte exibe-se com assepsias de ouro, um soldado chora com o que lhe sobra do coração, está perdido porque oferece o seu horário de pedra que dança com as incertezas que vigiam os dias. “Dois dedos fecham o que a morte gosta de enganar com laços que entortam o sonho numa cova de mármore branco”(VASCONCELOS, 2007, p.37).
O sono, no entanto, com o sentido de inércia não alimenta a poesia, mas somente aquele revigorado, trabalhado, pode alterar o sentido daquilo que só tem sentido no discurso literário. Sendo assim, recupera-se aqui mais uma vez a visão de Arlindo Barbeitos para quem “a poesia só é poesia se sugere, só tem expressão, só tem força, só é arte em forma de palavra, se simultaneamente retém e transcende a palavra”(BARBEITOS, 2004, p.8).
Neste universo de percepções, o discurso de Vasconcelos transforma vozes ausentes, silenciadas pelo sono profundo em figuras que transitam no tempo poético. A materialização por meio da linguagem artística daqueles que desapareceram nas águas turvas e repousam num horizonte longínquo, só se efetiva de fato por meio da voz do poeta. Sendo assim, o escritor empresta sua voz àquelas figuras que precisam metaforicamente se movimentar naquele cenário. Ele reconstrói um tempo de glórias desfeitas.
Diante disso, se o sono é o lado “não iluminado”, submerso na memória de um tempo de violência, o sonho reinterpreta as visões envoltas numa atmosfera em que: “A glória é fria porque só os bobos são parte da sua artimanha por lhes ser fácil imaginarem a morte da ficção que os escritores tentam salvar” (VASCONCELOS, 2007, p.48).A composição poética constitui-se, assim, no momento inexplicável de um achado, ou porque não dizer, nas horas enormes de uma procura pelas palavras essenciais para a inscrição que só o sonho inspira. A força advinda desta subjetividade chamada sonho envolve o ser criador em um ato íntimo, solitário, que se efetiva sem testemunhas, “porque essa idéia é como o vento só o tem no toque às palmeiras” (VASCONCELOS, 2007, p.50).
Sendo assim, pode-se afirmar que somente o escritor sabe de que é feita esta força repleta de concessões ao fácil, de soluções insatisfatórias, de aceitação resignada do pouco alcançado e de renúncia da sua própria voz para deixar vir à tona a voz que o surpreende em um ato mínimo, rápido e dinâmico. Neste apagamento do sujeito/produtor da poesia, ouve-se a voz descida. O poeta se faz passivo para que na captura do instante preciso não se derrame de todo esse pássaro fluido que é a poesia, pois
“Toda cumplicidade não pode ter a parte
mais íntima no cofre e o que é material só vive
pela troca desigual. (...) A dor cria sempre um poeta
capaz de enganar por cima do espelho
do lago a utopia com as mesmas artes
e metáforas que usas para salvar
o amor e seus orgasmos”. Toda a cidade tem o seu porto
nas portas que ficam abertas depois de à noite
perderes com rascunhos o teu próprio nome: mulheres. “O batom
é forte em cheiro e cor, abres uma janela quando
passa o último soldado com a idéia tirada do postigo
que deixara passar por força da intimidade
o que faz em fogo a dança guerreira, e podes
pedir-lhe algo mais do que o seu peito: ele dir-te-á não
porque quer viver com esse
verso que mais faz descer
a lua em teus
braços” (VASCONCELOS, 2007, p.22).Nesse contexto, a poesia faz circular os saberes. Desloca do espaço do poder a língua, que regula a história humana, dando-lhe uma nova roupagem, para imprimir os vários sentidos buscados. O poeta trabalha e vislumbra saídas na encenação dos enunciados, livre das amarras do poder regulador que delimitam os atos e as ações do homem na vida diária. Num jogo teatral, os significados se efetivam no desvio, na reordenação do código lingüístico que permite ouvir a língua fora do poder. O discurso literário ultrapassa os obstáculos típicos da língua, como código regulador do discurso "coerente" que sustenta o corpo social, e funciona como o logro, o lugar que dialoga com o dentro e o fora; com o interior e o exterior da linguagem literária, quando o discurso poético tem caráter testemunhal. Como bem define o eu-poético do trecho a seguir:
“Estou no ringue para indicar o que posso segurar
através dos meus ranhos e cobrar do mundo”.
Bandeiras com pensadores em ouro e até um despacho
do rei preparam essa luta onde cada um dos contendores
buscará a sua verdade sem que ninguém
saiba porque nos querem mais frágeis e infiéis. Um abismo
vence sempre o alcance dos olhos. Existe
uma neblina muito entrançada que faz a aurora
do Uíge e os anjos cheiram a bagos de café: são espelhos
cujo valor de distância só Deus sabe manter
mesmo quando o céu é um azul intenso
e mais próximo dos mendigos. “Trago
um juiz para a luta pois preciso de abrir a sua bíblia na página mais amarrotada e suja com óleo de palma e funge (VASCONCELOS, 2007, p.13).O contexto histórico-social, destoante e desconcertante no plano real, torna-se objeto singular no plano poético e precisa ser redimensionado via representação na poesia, espaço significante e de jogos de sentidos, para o funcionamento da discursividade de vozes não autorizadas e marginalizadas na sociedade. Diante de tal fato, a voz autorizada precisa apresentar e representar com toda a força que emana das palavras a vida, mas, no dizer de João Cabral Melo Neto, "é difícil defendê-la só com palavras, ainda mais quando é essa que se vê Severina"(MELO, 1980, p.122).
A presentificação dos fatos se caracteriza como o detalhe específico da arte literária. Os elementos recuperados do contexto são modelados, transformados, ou reforçados no âmbito poético. A arte tece a rede dos significados que podem emanar da superfície ou da profundidade do contexto, ou melhor, do “sonho que acalentámos/ Durante meses seguidos./E agora/ -Mariposa vermelha-/Só ficou a reluzir/ A pequenina centelha/ Duma ilusão a fugir”(SANTOS, 2004, p28-9).
Trilhando esta linha de fuga, o sujeito poético pode ouvir o “belo conselho” que não explica, mas ameniza o sentido do sono profundo. Sendo assim, privilegiando o dialogismo/poético, o escritor convida o leitor a ouvir essas vozes:
“Não, meu rei grande, esse jogo só o vences
se usares o silêncio que faz pela corrosão a frágil
verdade que pode em álcool constelar
pelo delírio e impaciência o ânimo diante das derrotas
que abriram a cirrose que confronta cada vogal
da tua última estrofe: Uma maleita de desilusão
só passa com um maior panfleto de oferta,
mas precisarias de uma nova guerra
e uma prenda de verdugos: um paredão. Levantas finas
lâminas de mármore e uma lança com pontas de cólera
para que os cavalos possam descansar nos novos terreiros, mas as cinzas que guardo como o teu melhor cabo pesam em mim
com igual pilar de escuridão da tua morte”, “Ah, belo conselho: sabes que o meu tempo oferece a eternidade e trono a um herdeiro que não conheces,
queima-se a utopia com um pouco de vinho, depois
a festa só serve para que mais homens da sanzala
digam que quem te sucedera nunca
nos dera o que mais desafiamos com a ilusão: Vida” (VASCONCELOS, 2007, p.50).Diante disso, constata-se que o poema citado anteriormente é o eco de experiências. É a maneira encontrada pelo poeta para revelar aquilo que a linguagem cotidiana não consegue revelar. A linguagem poética traduz o intraduzível. Ela é como um resíduo e neste caso é exato empregar a expressão “transmissora” de sensações antigas para revigorar um tempo de novas aventuras.
O passado apresenta várias versões, ele está imbricado entre a memória e a história e encontra na linguagem artística o suporte decisivo que “reduz, unifica e aproxima no mesmo espaço histórico e cultural a imagem do sonho, a imagem lembrada e as imagens da vigília atual”(BOSI, 1995, p.56). A memória traz à tona não só as percepções passadas, mas as sensações do presente que confluem e se complementam no instante da criação como força subjetiva e produtora dos símbolos profundos e ativos para compor o universo estético do escritor.
A vigília atual se processa no discurso poético como forma de interpretação do passado. Esta atitude explorada na escrita, além de fazer circular as várias falas, abre caminho para a diferenciação, para o resgate dos materiais simbólicos à disposição do autor que busca encenar na poesia um conjunto de representações presentes na consciência do sujeito poético.
Metaforizando aspectos da memória histórica, Vasconcelos aproxima o ontem e o hoje em linguagem poética para intercambiar experiências comunicáveis tão valorizadas na tradição oral de sua terra. Na produção do poeta angolano, os movimentos impostos ao sujeito poético advêm da sua habilidade para depreender gestos, hábitos, rituais e ritmos próprios da técnica da poesia moderna de modo que possa socializar com o leitor uma nova forma de visualizar as experiências que amarram a história do indivíduo à história da coletividade. Logo:“Como é que um poeta deixou abandonados
os seus versos na cela solitária da cadeia de São Paulo,
paredes pintadas de preto com teias
que desfazem a luz, lugar
onde mais entendi a loucura dos políticos
apesar de dizerem em verso que são os vôos
das gaivotas que criam a presença
de Deus?”. Um verso deveria ser a nossa segunda
pele no meio de uma ventosa que menos envelheceria
a palavra diante das idades
que já não chegam para preparar as respostas
que nos faltam para entendermos o caos
que ficou como marca
das utopias (VASCONCELOS, 2007, p.125).Valorizando aspectos como a estrutura poético-narrativa, a exploração valorativa das imagens submersas na memória e a estrutura da palavra, num processo de restauração e invenção, o poeta dá o colorido necessário ao texto. Com a recriação frasal por meio de realces materiais, inversões da sintaxe oracional, subversão do sistema de pontuação ? como o uso de aspas para realçar aspectos factuais ? e a disposição do texto na página, Vasconcelos instaura um estilo próprio de escrever e inscrever poeticamente a memória e a história. Pois:
Todos os rosários que passaram pelos meus dedos
e lhe deram calos não chegam para completar
essa idéia que dizes viver em cada minha dor. “E o sol
está aí como se maior fosse o muro
que nos afasta do mundo e esse nível de barreira
é o que mais prepara a perda que faz doer
o âmago”. O quadro na sala de estar não é só o erguer
da nossa irmandade, uma folha caída e com o vento
como seu bordado pega-se em tudo que abre
uma janela diante do mar para refazer o percurso
dos apóstolos no que o mundo de forma inocente
se abrira em incógnitas: “O mar imagina-se na mala
fechada oferecida por um cigano e o exílio levanta
o nome dos mortos que fazem reconhecer a pátria
na mão de pedintes”. Todos os rosários
penduram o silêncio no que já não
podes aplaudir (VASCONCELOS, 2007, p.99).Segundo Evando Nascimento, “a ambivalência fundamental entre pulsão de vida e pulsão de morte, antes de ser uma dicotomia entre duas plenitudes, se revela como a própria condição para a existência de qualquer sistema”(NASCIMENTO, 2001, p.172), pois, quando um sucumbe, o outro, reprimido da história, ainda que poeticamente, surge para impulsionar por outra via o curso da existência. Diante disso, pode-se dizer que Vasconcelos precisa violar e violentar todas as regras – gramaticais, os fatos históricos, etc. – para dar vida a um discurso entrecortado, camuflado, silenciado, mas revelador das imagens cristalizadas no “espelho” da memória, repleta de personagens históricos. Sendo assim,
“Um dente cariado de um poeta não pode alterar
a utopia para a sua podridão”, “Sim, meu filho,
as palavras podem passar pela cárie de todos os dentes
e não perderem a beleza e nem mesmo as moscas do musseque
perseguirão as suas vogais. Todas as palavras deveriam
conhecer o seu sinaleiro como seu alto orientador através
de uma bússola que conhece como os egos
fazem as trocas de identidades porque o mundo
é uma montra onde os actores vencem
quando fingem não ser o que se advinha através
dos búzios que as velhas ensinaram
a dominar com duas pontas de luar”. Podes ver
essa lição quando Viriato da Cruz
é levado pelos beijos de um casal sentado nos bancos
partidos da marginal e o Banco Nacional com todo o cofre
do país não faz parte desse idílio por lhes ser cara
a pureza: “Amor, dobra o lado do sim”. E estão diante do mar
e seus barcos iluminados perdem o sentido
das viagens, barcos sem âncoras: “Já não se trazem
em vaidade as palavras dos exílios,
os guerrilheiros e Álvaro Cunhal cedo perderam os antigos
aplausos e o umbigo marca o palácio, mas, meu amor,
eu levo-te através dos bibes da lua que nos vestem
a alma com novas portas e palavras
cada vez mais viradas
para dentro
de nós”(VASCONCELOS, 2007, p.126).Numa explosão dos sentidos paradigmáticos da poesia, Vasconcelos valoriza o estilo narrativo para fazer falar o individual e o coletivo, como bem define o poeta João Cabral de Melo Neto: “Somos muitos Severinos / iguais em tudo na vida e na sina”(MELO, 1980, p.120). Sina esta, mantenedora do sonho que realimenta uma imagem fugidia de uma utopia desejada, mas dispersa em muitas aquarelas como se vê em Luanary.
Neste sentido, entretecendo um ritmo gerador de cumplicidades e oposições, o poeta leva o leitor a apreciar o entrecruzar do canto polifônico, os traços que remontam na cadeia do tempo poético aos sinais de uma universalidade. A memória é ilimitada e encontra na criação poética os recursos lingüísticos necessários para fazer nascer - da musicalidade dos versos, da repetição das palavras que compõem o mosaico - a infinita medida do canto.
A invenção poética dá o tom da obra deste autor que dialoga com seus compatriotas e com outros de além-mar, como bem define Elisalva Madruga em seu artigo "Ressonâncias drummondianas na poética africana"(MADRUGA, 2003, p.15). Segundo ela, a voz de Drummond, carregada de sentimento de mundo, ecoa em outras vozes poéticas africanas, formando com elas um coro cuja tonalidade é orientada pelo diapasão da dor.O discurso poético de Vasconcelos se constrói num processo dialógico. A poesia faz circular os saberes de forma intertextual e cria novas redes de cumplicidades. O trabalho artístico busca respostas para perguntas provenientes das inquietações humanas. A função poética da linguagem está fixada na mensagem e coloca em segundo plano o referente por meio de recursos forma/conteúdo, tais como associações de sons e imagens na língua “alterada” e transformada por recursos estéticos e semânticos, como se depreende no poema a seguir:
As gaivotas já foram crianças abandonadas
ainda no berço e podias chamá-las de José. Os nomes
não podem fazer o registo da utopia
porque até o sol apesar da sua altura nunca
oferece o céu para que mais loucos
fiquem assustados à porta do teu palácio. Oh, rei,
tiraste-me o pote de mel e só precisaste
de um café sem açúcar! O movimento da colher
empurrava a sala oval, terrinas de oiro
vazias ficaram cheias dos meus
objectos: anéis, colares... chaves de um BMW, em rotação
diferente, como abrupta queda de mim mesmo. Era
só veres como iluminada estava a foto
do tio que eu abandonara, as minhas
lágrimas nada podiam fazer. (VASCONCELOS, 2007, p.25).Seguindo a linha de fuga promovida pelo dialogismo, as imagens expostas no poema acima nos remetem a Carlos Drummond de Andrade e a seu poema “E, agora José?”. O José do poeta brasileiro é um operário que, assim como o José do poeta angolano, metaforiza sua contribuição na construção dos palácios onde, concluída a obra, já não poderá entrar. E se “os nomes não podem fazer o registo da utopia” (VASCONCELOS, 2007, p.25), os poetas podem construir a utopia com imagens que impulsionam a vida, mesmo depois de os “mais fortes da sanzala [terem] abandonado o meu quintal” (VASCONCELOS, 2007, p.25) e o José drummondiano ainda pergunta “para onde?”.
Nas obras de Vasconcelos, as versões do passado são reatualizadas com imagens elaboradas por um procedimento produtor de opiniões que articulam experiências só evidenciadas no presente com a reconstrução factual. Reconstrução esta, capaz de promover o questionamento de vozes individualizadas e coletivas que compõem o mosaico poético e trazem à tona as águas revoltas do passado para reinterpretá-las no espaço literário onde ocorrem reflexões acerca do “silêncio [que] fez a noite ser mais longa pelo rabo de uma cobra que toca os tambores que ainda guardam as lágrimas dos kombas” (VASCONCELOS, 2007, p.13).
As imagens densas da história, sob o prisma da imaginação criadora, recebem um colorido especial, logo, as águas entorpecidas, pesadas - símbolo da violência que define o curso da vida - são transformadas em metáforas de leveza repletas de “balões feitos com leves espelhos de água que deixam o mundo mais bonito” (VASCONCELOS, 2007, p.132).
Envolto numa aura de rememoração, a poesia de Vasconcelos transita entre a tradição e a modernidade, com um discurso entrecortado por traços que ligam o sujeito poético ao discurso do contador de histórias. Vasconcelos constrói um universo artístico que valoriza a descoberta de novos processos que atualizem no imaginário os valores da tradição em consonância com a atualidade. E já que as transformações associadas à modernidade modificaram as relações do indivíduo com suas práticas discursivas, o sujeito poético afirma sua forma de estar no mundo individualizando-se e diz:
[...] lá longe, onde só Deus pode escutar, as minhas palavras
perdiam cada vez mais a matiz
da minha identidade e os outros loucos
mais antigos que se suicidavam aproveitando
a vertigem a saldo. Falo de Lameira, Viriato, Aristóteles
e Zaratustra, Luther King, Kwame Nkrumah (VASCONCELOS, 2007, p.144).
Nessa dinâmica discursiva, Vasconcelos traz à cena figuras históricas e a idéia da perda identitária para promover no cenário poético a crítica a uma época em que
[...] «Oh, Pátria, queríamos
ser os únicos untados com azeite das lamparinas
que protegessem a nossa sorte, aqueles que passassem
pela dor de Njinga como se fosse bálsamo
e trigo para toda a epopéia, mas não podemos deixar de sofrer
com os irmãos que pior dor, sina e morte receberam
de seus camaradas e compadres (VASCONCELOS, 2007, p.20).
A contemporaneidade literária africana de língua portuguesa envolta num misto de fragmentação e ruptura - características das mudanças processadas nas sociedades que buscam uma nova ordem social, política e econômica -, "parece roubar à poesia a possibilidade da comunhão, interditando-lhe aquela velha faculdade de promover a aliança entre o homem e a natureza, entre a arte e a sociedade, entre os homens e os outros homens"(CHAVES, 2005, p.63).
Neste sentido, o retorno à tradição, ao diálogo com poetas locais e de outras nacionalidades, impõe-se ao escritor que não se quer cúmplice da destruição, mas inventor de uma nova poética capaz de formular as respostas precisas para expressar a crença de que "o poeta pode evitar o caos quando consegue assegurar à palavra o direito e o poder de continuar fundando utopias"(CHAVES,2005, p.63).Com um dinamismo típico de um contador de histórias, Vasconcelos estabelece um pacto com a tradição para manter viva a chama que alimenta a existência de toda uma coletividade. Sua poesia revigora o ritual de transmissão de conhecimento e irriga com as experiências individuais e coletivas a cadeia primordial da arte de narrar, que em sua obra vai pouco a pouco adquirindo um status mágico, ritualístico ? um ato de iniciação ao universo da angolanidade. Podemos dizer, então, que Vasconcelos atinge a dimensão histórica do narrador/contador de histórias. Essa dimensão corporifica um sistema de valores estéticos capaz de recuperar o espaço matricial da tradição em vários níveis para fazer circular num jogo intertextual as marcas peculiares à memória e à história. Com imagens sensoriais que transitam entre a poesia e a prosa, o autor representa, com toda a força que emana das palavras, as vozes silenciadas.
Conclui-se que o sujeito de enunciação num jogo imagético coloca o leitor diante de uma explosão de sentidos da temática sólito versus insólito. Esta pulsão criadora composta por imagens duplicadas, múltiplas, oriundas de aspectos do plano poético, histórico e mítico, redimensiona a idéia de água pesada, pois como bem define Vinicius de Moraes no “Soneto de separação”, texto de abertura deste artigo, do momento imóvel fez-se o drama.
Referências
1- ANDRADE, Carlos Drummond de. José e outros. 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.
2- BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
3- BARBEITOS, Arlindo. Angola, angolê, angolema. Luanda: Maianga, 2004.
4- BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
5- CHAVES, Rita de Cássia Natal. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê, 2005.
6- MADRUGA, Elisalva. “Ressonâncias drummndianas na poética africana”. In: Contatos e ressonâncias: literaturas africanas de língua portuguesa. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003.
7- MELO Neto, João Cabral de. "Morte e Vida Severina". In: Obras completas. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.
8- MORAES, Vinicius de. O operário em construção. 2 ed., Lisboa: Dom Quixote, 2001.
9- NASCIMENTO, Evando. Derrida e a literatura: “notas” de literatura e filosofia nos textos da desconstrução. 2.ed. Niterói: EdUFF, 2001.
10- OLIVEIRA, Jurema José de. Violência e violação: uma leitura triangular do autoritarismo em três narrativas contemporâneas luso-afro-brasileiras. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007.
11- SANTOS, Aires de Almeida; LARA Filho, Ernesto; CRUZ, Viriato da. Obra poética Luanda: Maianga, 2004.
12- VASCONCELOS, Adriano Botelho de. Luanary. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2007.
13- ___.Olímias. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005.
14- ___.Tábua. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2004.* Jurema José é Crítica Literária das Literaturas dos PALOPs
* Por favor envie comentários para [email][email protected] ou comente on-line em http://www.pambazuka.org
Tagged under GovernaçãoAmaly Aly Dieng em seu texto analisa o início da década de 80 os impactos das imposições do Banco Mundial e do FMI nas economias em desenvolvimento. É neste mommento que a economia informal começa a se espalhar por África como um modo de vida e de sobrevivência. Ele discute a nomenclatura economia informal e setor informal que foram criada pelas organizações financeiras estáveis. O autor também problematiza a questão da economia familiar no contexto das atividades informais no Senegal por exemplo.
Tagged under GovernaçãoQuando os Estados Unidos lançaram oficialmente um novo comando militar para África, vários países do continente reagiram positivamente. A Libéria, por exemplo, ofereceu-se para acolher uma possível base. Mas, outros países, sobretudo na zona austral do continente, estão contra o aumento da presença militar americana, vista como desnecessária e uma intrusão. Em destaque neste trabalho as razões porque o AFRICOM poderá fazer face a resistência no continente e como os responsáveis americanos explicam o propósito do novo comando.
Tagged under Governação"Normalmente, a saída encontra-se onde estava a entrada”, diz Stanislav Jerzy Lec, meu companheiro na tentativa de tornar intelegível o político em Moçambique. Alguns destes aforismos não encaixam lá muito bem, mas já é tarde para mudar da forma de bater, como se diz em xangan. Comecei assim, vou terminar assim mesmo. Xangan conservador, mas moçambicano moderno. Também não encaixa, mas pouco importa. Vamos, então, ao que interessa. Neste semestre vou dar a cadeira de sociologia urbana com enfoque especial para os processos de urbanização em África. Uma coisa interessante que constato nas leituras que faço é o papel da cidade na estruturação do político na Europa. Existe, a este propósito, uma reflexão muito interessante feita por Max Weber sobre o papel da cidade no desenvolvimento do capitalismo e que, mais tarde, ainda que de forma indirecta, foi recuperada por Jürgen Habermas para discer sobre a transformação estrutural do espaço público. Outro grande percursor da sociologia urbana foi Georg Simmel – um abraço aqui aos estudantes do primeiro ano de sociologia do ISCTEM – que se debruçou especificamente sobre as formas de sociação em meio urbano.
Faço referência a estas coisas para chamar a vossa atenção para o interesse que teria uma análise da constituição dos nossos espaços sociais na reflexão sobre o político. É que acho que a história das nossas cidadades – a cidade de Xai-Xai acaba de celebrar mais um aniversário (e pergunto-me se as autoridades lá percebem o alcance disso; digo isto porque neste momento a cidade está a braços com um problema sério de remoção de resíduos sólidos, vulgo lixo, que ao estilo moçambicano, incentiva o espírito empreendedor de algumas pessoas. É assim: o lixo é recolhido só na parte de cimento até um certo ponto que, no bairro 11 da cidade, termina na casa de um dos vereadores; depois disso é a selva; as pessoas juntam o lixo e procuram por uma vala onde há pessoas que ao preço de 10 meticais esvaziam os sacos...) – seria interessante, voltei ao assunto da história das nossas cidades, do ponto de vista de saber que papel desempenharam na constituição da nossa cultura política.
E aqui manifesta-se um dos mais pesados fardos do legado colonial. Penso ser importante evitar aquilo que Mahmood Mamdani, um intelectual ugandês, chama de “história por analogia” na análise das coisas africanas. Neste caso, a referência seria à tendência que alguns de nós teríamos de tentar explicar os problemas da nossa esfera política com base no facto de o desenvolvimento da urbanização não ter sido idêntico ao europeu. Este reparo não nos impede, obviamente, de procurarmos nesse desenvolvimento subsídios que nos ajudem a dar sentido à nossa esfera política. Acho, por exemplo, que a forma como os africanos foram integrados na vida urbana influenciou bastante a cultura política que se desenvolveu a partir de então. Na verdade, nessas urbes – e por força do poder fascista instaurado – nunca fomos integrados como verdadeiros cidadãos, isto é como membros de uma comunidade política com direitos e obrigações que nos definiam como tal e tornavam esses espaços parte da nossa condição. A nossa relação com estas aglomerações foi sempre uma relação distante e de difícil tradução ao nível de responsabilidade política. Não me admira muito que se sintam mais à vontade com a municipalização minorias que já no tempo colonial tinham uma certa participação na gestão da coisa pública. Este tipo de coisas precisa de tradição e aprendizagem.
Portanto, o período colonial produziu citadinos, mas nunca cidadãos. É verdade que a condição de citadino levou muitos a procurarem ser cidadãos – luta pela auto-determinação – mas para azar nosso os compatriotas que se meteram nessa aventura travaram também conhecimento com correntes políticas que lhes ensinaram a ter desprezo pela cidadania. Voltaram do mato com a ideia de que só eles é que podiam definir os termos da nossa cidadania. E nessa ideia de cidadania nunca houve espaço para a responsabilidade individual e para a prerrogativa de sermos nós a dizer a quem nos dá as ordens em que condições nos deve dar ordens. A guerra dos 16 anos veio piorar esse quadro ainda mais com a convicção de que a violência gratuita compensa aliada à credulidade com que muitos dos nossos observadores políticos aceitaram as credenciais democráticas de quem simplesmente as proclamou e a competência militar de quem não foi vencido por um dos piores exércitos do mundo.
Entretanto, no meio rural assistiu-se durante o período colonial a uma errosão gradual da autoridade, esvaziando as formas de exercício de poder de todo o controlo interno e colocando a fonte da sua legitimidade num poder externo, distante e rapinoso. A má educação que caracteriza o comportamento de muita gente em meio urbano em Moçambique – comportamento no trâfego, em repartições públicas, etc. – pode estar ligada a esta errosão de autoridade que privou o moçambicano de estruturas fortes e sólidas de socialização para a vida em sociedade. Mais uma vez, a violência militar fez também das suas para aprofundar esta crise. Não nos esqueçamos, como aliás bem observou Christian Géffray, o malogrado antropólogo francês que estudou a guerra em Nampula, que o entusiasmo revelado pelos guerrilheiros da Renamo nas suas acções de violência não estava desligado do facto de se tratar de jovens de origem rural que queriam dar uma licção aos mais velhos e aos urbanos.
Os espaços que se foram constituíndo no nosso país merecem estudos mais aprofundados para começarmos a perceber o político. Nem tudo precisa, naturalmente, de ser caracterizado de forma negativa. As igrejas protestantes do estilo da presbiteriana, metodista, baptista, anglicana, wesleyana, por exemplo, foram sempre espaços importantes de constituição de espaços de responsabilidade individual com valor interessante para a promoção da cidadania. Severino Ngoenha já observou, e com muita razão, que a existência destes espaços foi prepodenrante para a transição democrática no país, muito mais do que as aulas de educação cívica que foram sendo promovidas por fundações políticas estrangeiras. A Missão Suíça, por exemplo, nunca aceitava instalar pastor onde não houvesse capacidade local de o sustentar. Esta postura contrasta vivamente com a cultura de dependência que o nosso sistema político centralizado continua a promover com o apoio da indústria do desenvolvimento.
*Elísio Macamo é moçambicano, sociólogo e professor da Universidade de Bayreuth, Alemanha.
*Por favor envie comentários para [email][email protected] ou comente on-line em http://www.pambazuka.org
Tagged under GovernaçãoDepois de questionarem os motivos por trás de uma recente onda de aumentos em Cabo Verde, blogueiros foram surpreendidos na semana passada com a notícia de que o país seria imune à crise econômica em que o mundo para além do arquipélago está afundando. A alegação teria sido feita pelo presidente da Bolsa de Valores de Cabo Verde, Veríssimo Pinto, durante um debate na estação de rádio nacional. Agora, os blogueiros locais querem saber como essa pequena nação pode ser imune à crise e perguntam: será que Deus é cabo-verdeano?
Tagged under Governação Cape VerdeDeclaração de Maputo
Soberania alimentar, já! Com a luta e a unidade dos povos!
Somos gentes da terra, homens e mulheres que produzem os alimentos para o mundo. Temos o direito de continuarmos sendo camponeses e camponesas, e a responsabilidade de continuar alimentando a nossos povos. Cuidamos das sementes que são a vida, e para nós, o ato de produzir alimento é um ato de amor. A humanidade precisa de nós e nos negamos a desaparecer.
Nós, a Via Campesina, um movimento mundial de organizações de mulheres rurais, camponeses, camponesas, pequenos agricultores e agricultoras, trabalhadores e trabalhadoras do campo, povos indígenas, afrodescendentes, e juventude rural da Ásia, Europa, América e África, nos reunimos em Maputo, Moçambique, e 19 a 22 de Outubro de 2008, em nossa V Conferência Internacional. Fomos recebidos de maneira calorosa, fraternal e combativa por nossos anfitriões, a União Nacional de Camponeses (UNAC) de Moçambique.Nos reunimos para reafirmar nossa determinação de defender a agricultura camponesa, nossas culturas e nosso direito de continuar existindo como povos com identidade própria. Somos mais de 550 pessoas, incluindo mais de 325 delegados e delegadas de 57 países, representando centenas de milhões de famílias camponesas. Nós mulheres representamos mais da metade das pessoas que produzem alimentos no mundo,e aqui realizamos, com energia e determinação, nossa Terceira Assembléia Mundial das Mulheres. Nós jovens, também realizamos nossa nossa Segunda Assembléia de Jovens da Via Campesina, já que a participação decisiva da Juventude garante tanto o presente como o futuro do campo. Nesta V Conferência Internacional também ratificamos a 41 organizações como novos membros da Via Campesina, e contamos com participação de muitas organizações e movimentos aliados de to o mundo, em nossa Primeira Assembléia com os Aliados da Via Campesina.
Quatro anos de lutas e vitóriasNa V Conferência Internacional revisamos nossas principais lutas, ações e atividades desde a IV Conferência Internacional, que se realizou em Itaici, Brasil, em junho de 2005. Entre elas se destacaram as mobilizações massivas contra a OMC, contra os Tratados de Livre Comércio (TLCs) em diversas partes do mundo, e contra o G8 em Rsotock e Hokkaido. Em 2005 La Via Campesina esteve muito presente na jornada de luta frente a Conferência da OMC em Hong Kong, participando assim na mais recente das ações contínuas, com a qual os movimentos sociais temos mantido paradas as negociações nas conferências da OMC desde Seattle em 1999. Também tivemos papéis centrais em outras mobilizações contra a OMC, desde Genebra até a India.
Em 2007 organizamos, com nossos principais aliados, o Fórum Internacional Sobre a Soberania Alimentar, em Nyéleni, Mali. Este foi um momento crucial na construção de um grande movimento global pela Soberania Alimentar. Participaram em torno de 500 delegados e delegadas dos mais importantes movimentos sociais de todo o mundo, e se definiu uma agenda estratégica e de ação para os próximos anos. Tanto antes como depois de Nyéléni, organizamos muitas reuniões nacionais e regionais sobre a Soberania Alimentar. Nos últimos anos conseguimos que vários países, entre eles Equador, Bolívia, Nepal, Mali, Nicarágua e Venezuela, se incorporasse ao conceito de Soberania Alimentar em suas constituições e/ou leis nacionais.
Através de nossa Campanha Global pela Reforma Agrária, expressão de nossas lutas pela terra e em defesa do território, co-organizamos o Fórum Social Mundial da Reforma Agrária em Valência, Espanha em 2004, y em 2006 organizamos a Reunião Internacional dos Sem Terra em Porto Alegre, Brasil, antes da Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR) da FAO. Então, participamos das mobilizações do 8 de Março das mulheres do Brasil contra o deserto verde de Eucalipto da transnacional Aracruz em 8 de março, e no Foro Paralelo, conquistando importantes avanços na posição dos governos. Em 2007, organizamos, em Nepal, a Conferência Internacional sobre Soberania Alimentar, Reforma Agrária e Direitos Camponeses.
Em 2004 organizamos uma festa global de intercâmbio de sementes, dentro do contexto de nossa IV Conferência. Em 2005 organizamos o Seminário Internacional sobre Sementes “Liberar a Diversidade”, como parte e nossa luta global a favor das sementes camponesas e contra os transgênicos e a tecnologia terminator. A Via Campesina do Brasil organizou contundentes mobilizações durante a Conferência da Convenção da Diversidade Biológica (COP-8) em março de 2006 em Curitiba, Brasil. Sobre os mesmos temas tivemos importantes atividades em Mysore, Índia nesse mesmo ano, e em 2008 em Bonn, Alemanha e na França, onde com uma greve de fome ajudou fortemente a conseguir a proibição do milho transgênico da Monsanto. No Brasil em 2007, Keno, um grande lutador, foi assassinado por um pistoleiro contratado pela Syngenta, mas um ano depois conseguimos que Syngenta tivesse que entregar ao governo sua área ilegal de experimentação dos transgênicos.
A Via Campesina junto com outros movimentos sociais organizou “a aldeia da solidariedade” de forma paralela à Conferência Sobre o Cambio Climático que a ONU organizou em Bali, Indonésia (2007),onde avançamos com o argumento de que a agricultura camponesa esfria o planeta.
Em 2008 organizamos em Jacarta, Indonésia, uma conferência internacional centrada em nossa proposta para uma Declaração Internacional dos Direitos dos Camponeses e Camponesas. Anterior à conferência internacional se organizou a Assembléia das Mulheres sobre os Direitos dos Camponeses e Camponesas.
O compromisso solidário da Via campesina foi evidenciado em 2004 com nosso esforço global para canalizar ajuda alternativa às vítimas do Tsunami, em 2007 com três delegações presentes em reuniões com Zapatistas no México, e todos os anos com ações importantes de solidariedade com lutadores e lutadoras vítimas da criminalização dos protestos sociais em todos os continente.
O deslocamento de povos rurais como conseqüência do modelos neoliberal, está provocando o movimento massivo de pessoas, convertendo-se em um tema crítico para a Via Campesina. Desde 2004 elaboramos nossas estratégias e ações sobre estes temas em nossa nova Comissão de Trabalho sobre Migração e Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Realizamos diversas ações contra o muro da vergonha que constroem os Estados Unidos.
De povo a povo, de país a país, realizamos lutas da Via Campesina. Nosso movimento está em quase todas as partes do mundo, onde o neoliberalismo está sendo imposto aos camponeses e às camponesas e povos rurais.
A luta da Via campesina inspira, estimula e gera a resistência de movimentos sociais contra as políticas neoliberais. Aumenta os países nos quais os governos progressistas assumem o poder como resultados de anos de mobilização. E, inclusive, um bom número de governos locais e nacionais acentuaram sua resistência e seu interesse na pauta da Soberania Alimentar, como resultado da mobilização popular y como resposta à crise global do preços dos alimentos.
A ofensiva do capital sobre o campo, as crises múltiplas, e a expulsão dos povos camponeses e indígenas
No contexto global atual estamos enfrentando a convergência entre uma crise dos alimentos, uma crise climática, uma crise energética e uma crise financeira. Estas crises têm origens comuns no sistema capitalista, e mais recentemente na des-regularização desenfreada de seus respectivos âmbitos da atividade econômica, como parte do modelo neoliberal, que prioriza o comércio e a ganância. Nas zonas rurais do mundo, vemos uma ofensiva feroz do capital e das empresas transnacionais sobre a a agricultura e os bens naturais (água, florestas, minérios, biodiversidade,terra, etc.), que se traduz em uma guerra de expulsão contra os povos camponeses e indígenas, usando falsos pretextos como os argumentos errôneos que defendem os agrocombustíveis como uma solução para as crises climáticas e energéticas, quando na verdade é exatamente o contrário. Quando os povos exercem seus direitos e resistem às expulsões generalizadas, ou quando são obrigados a ingressar nos fluxos migratórios, a resposta tem sido mais criminalização, mais repressão, mais presos políticos, mais assassinatos, mais muros da vergonha e mais bases militares.
Declaração dos Direitos dos Camponeses e Camponesas
Vemos a futura Declaração dos Direitos dos Camponeses e Camponesas da ONU como uma ferramenta estratégica no sistema legal internacional para fortalecer nossa posição e nossos direitos como camponeses e camponesas, por isto estamos lançando também a Campanha Mundial por uma Declaração dos Direitos dos Camponeses e Camponesas.
Soberania Alimentar: a solução das crises, e a vida de los povos
Entretanto, a situação atual da crise também é uma oportunidade, porque a Soberania Alimentar oferece a única alternativa real tanto para a vida dos povos, como para reverter as crises. A Soberania Alimentar responde à crise dos alimentos, com produção camponesa local; às crises climáticas e energéticas, atacando duas das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa, o transporte de alimentos em larga distância e a agricultura industrializada,e para amenizar uma vertente da crise financeira, proíbe-se a especulação dos alimentos. O modelo dominante significa crise e morte, e a Soberania Alimentar é a vida e a esperança para os povos rurais e também para a população consumidora. A Soberania Alimentar requer a proteção e a re-nacionalização dos mercados nacionais de alimentos, promoção dos ciclos locais de produção e consumo, a luta pela terra, a defesa dos territórios dos povos indígenas , e a Reforma Agrária integral. Baseia-se também na mudança do modelo produtivo para uma produção agroecológica e sustentável, sem pesticidas e sem transgênicos; e no conhecimento camponês e indígena. Com princípio geral, a Soberania Alimentar se constrói com base em nossas experiências concretas em nível local, ou seja, do local ao nacional.
A crise causa sofrimento incalculável entre nossos povos, e corrói a legitimidade do modelo neoliberal do “livre comércio”. E alguns governos locais, estatais e nacionais mais progressistas começaram a buscar soluções alternativas. Na Via Campesina devemos ser capazes de aproveitar estas oportunidades.
Temos que desenvolver uma metodologia de trabalho que inclui o diálogo crítico e construtivo, para obter êxitos na implementação da Soberania Alimentar com estes governos. Também devemos aproveitar espaços internacionais de “outra integração”, como ALBA e Petrocaribe, para avançar neste terreno. Mas não podemos somente aposta nos governos. Mas devemos construir a Soberania Alimentar de baixo para cima nos territórios e outros espaços controlados por movimentos populares, povos indígenas, etc. Já está na hora da Soberania Alimentar. Temos que tomar a iniciativa para avançar sobre este terreno em todos os países. Nós os camponeses e camponesas do mundo podemos e queremos alimentar o mundo, a nossas famílias, nossos povos, com alimentos saudáveis e acessíveis.
As empresas multinacionais e o livre comercio
Nossa reflexão nos deixou a clareza de que as empresas multinacionais e financeiras são um de nossos inimigos comuns mais importantes, e que temos quefazer lutas cada vez mais diretamente sobre elas. Inclusive são elas que estão detrás dos outros inimigos dos camponeses e camponesas, como o Banco Mundial, o MFI, a OMC, os TLCs e a EPAs, os governos neoliberais, e o expressionismo econômico agressivo, o imperialismo e o militarismo. Agora é também o momento para redobrar nossa luta contra os TLCs e EPAs, e contra a OMC, mas agora com uma sinalização mais clara do papel central das multinacionais.O avanço das mulheres é o avanço da Via Campesina.
Um tema ficou muito claro em nossa V Conferência: que todas as formas de violência que enfrentam as mulheres em nossas sociedades – entre elas a violência física, a econômica, a social, a machista, a de diferenças de poder,e cultural – estão também presentes nas comunidades rurais e por fim em nossas organizações. E isto, além de ser uma imensa fonte de injustiça, também limita a capacidade de nossas lutas. Reconhecemos a relação íntima entre o capitalismo, o patriarcado, o machismo, e o neoliberalismo com seus preconceitos contra a camponesas do mundo. Nós, todos e todas, mulheres e homens, da Via Campesina, nos comprometemos de forma responsável por construir novas e melhores relações humanas entre nós como parte necessária da construção das novas sociedades que aspiramos. Por isso, na V Conferência tomamos a decisão de romper o silêncio e lançamos a Campanha da Via Campesina “Pelo Fim da Violência Contra As Mulheres”. Nos comprometemos, outra vez e com mais força a meta de alcançar a complexa, mas necessária, paridade de gênero real em todos os espaços e instâncias de participação, análises, debates e decisões na Via Campesina, e fortalecermos o intercâmbio, coordenação e solidariedade entre as mulheres de nossas regiões.
Reconhecemos o papel central da mulher na agricultura de auto-suficiência alimentar, e a relação especial das mulheres com a terra, com a vida e com as sementes. Além disso, as mulheres são e sempre foram parte determinante na construção da Via Campesina desde o seu início. Se não vencermos a violência contra as mulheres dentro de nossos movimentos, não avançaremos em nossas lutas, e se não constituirmos novas relações de gênero, não poderemos construir uma nova sociedade.
Não estamos sós: a construção das alianças
Nós, os camponeses e camponesas, não podemos vencer sozinhos nossas lutas pela dignidade, por um sistema alimentar e agrário mais justo, e dessa forma o outro mundo melhor que é possível. Temos que construir e reforçar alianças orgânicas e estratégicas com os movimentos sociais e organizações que compartem nossa visão e isto é um compromisso especial da V Conferência.
A juventude nos dá a esperança para um mundo melhor
O modelo dominante no campo não oferece nenhuma opção para a juventude, e isso é uma razão muito importante para mudá-lo. Os jovens e as jovens são nossa base tanto para o presente como para o futuro, assim que nos comprometemos com sua plena inserção e participação criativa em todos os níveis de nossas lutas.
A formação para o fortalecimento de nossas lutas
Para que tenhamos êxitos e vitórias em nossas lutas, temos que nos dedicar ao fortalecimento interno de nossos movimentos, através da formação política para aumentar nossa capacidade coletiva de analisar e transformar nossas realidades, a capacitação, e melhorar a comunicação e articulação entre nós e nossos aliados.
Diversidade e unidade na defesa da agricultura camponesa
Como movimento social internacional, podemos dizer que uma de nossas maiores forças é que somos capazes de unir diferentes culturas e modos de pensar em função de uma mesma luta. A Via Campesina representa um compromisso comum de resistir e lutar pela vida e pela agricultura camponesa.
Todos os participantes da V Conferência da Via Campesina nos comprometemos a defender os alimentos e a agricultura camponesa, a Soberania Alimentar, a dignidade e a vida. Aqui estamos, os camponeses e camponesas do mundo, e nos negamos a desaparecer.
Globalizemos a luta! Globalizemos a esperança!
Tagged under Governação Mozambique“É difícil aconselhar um líder que está sempre certo"
É tarde da noite. Bobinga Iroko é incapaz de dormir. Ele está trabalhando no editorial para o próxima edição de O tambor falante. Ele, deliberadamente, recusou a lançar a história sobre homossexualidade. Sua prioridade ainda é a greve na Universidade de Mimbo, a qual, curiosamente, não atraiu muita cobertura do resto da imprensa nacional concentrada em Nyamandem e Sawang. Ele e O tambor falante, apesar dos obstáculos formidáveis que se punham diante si, estão determinados a empreender uma cruzada tal como um vaqueiro solitário, até o dia da vitória. Eles acreditam que o pôr do sol não deve ofuscar uma boa idéia.
Ele também luta com um obituário sobre a morte súbita, sob circunstâncias misteriosas, de um dos raros e genuínos intelectuais da Universidade de Mimbo. Desprezado pelas autoridades como “uma pessoa incrivelmente fútil, incompetente inveterado e um louco separatista,’ e conhecido popularmente com um “Guerreiro Intelectual”, Doutor CI (Caneta Inflamada) foi encontrado morto na noite passada em sua casa, com seu esqueleto esquartejado, seu cérebro e genitálias desaparecidos. Em sua transição de Caneta Inflamada para Caneta Sepultada, ele se parecia mais com a vítima de um assassinato ritual do que de um roubo. Dr. CI não tinha medo de fazer carreira limitando afirmações, e preferiria muito mais morrer do que virar uma vaca. Ele tinha um desprezo absoluto por aqueles que não estavam nem aqui nem ali em suas convicções, e àqueles que pareciam dizer coisas apenas para agradar do mesmo modo que um camaleão faz em sua vizinhança.
Para ele, tais pessoas eram superficiais, míopes e irrelevantes. Um crítico corajoso que uma vez descreveu a Universidade de Mimbo como o “cemitério do entusiasmo”, Dr. CI estava escrevendo um comentário intitulado “Eu acuso” quando foi morto no meio de uma sentença.
Dr. CI morreu fazendo aquilo que ele sempre fazia: lutar para fazer a diferença e fazer a diferença lutando. Para Bobinga Iroko e O tambor falante, Dr. CI morreu mantendo a esperança viva numa situação sem esperança, adicionando o peso de sua caneta para trazer um pingo mais de dignidade para a vida ordinária dos moradores de Mimbo, desnudados por uma pretensão rasteira, uma retórica estéril e seu vocabulário radical de ódio. Ele morreu lutando contra as batalhas que ele gostaria de ver outros lutando também contra após sua morte. Num contexto onde muitos intelectuais foram silenciados pela futilidade, pela virtude fácil, pela política estéril e uma impunidade irresponsável, CI era uma rara exceção que manteve-se ligado aos ideais de um intelecto genuíno, liberdade acadêmica e responsabilidade social.
Bobinga Iroko sempre se lembrará com carinho dos ensaios e contribuições de CI nas páginas de O tambor falante, os quais sempre foram objetivos sobre o que ele acreditava estar errado em sua terra natal, assim como eles também eram sobre aquilo que pudesse corrigir os erros. Logo, parece infeliz e irônico o fato de que CI morresse da forma tão cruel, e não dos excessos de seus ensaios e comentários que potencialmente o ameaçaria de morte. E foi também igualmente infeliz o fato de ele deixar a cena justamente quando estava pronto a dividir como mundo pessoalmente a riqueza de sua experiência sobre um país e uma comunidade universitária onde um governo relutante e aqueles cujos intelectos estavam adormecidos não teriam dó em descarrilar o trem da esperança e da dignidade humana.
CI epitomizava aqueles que recusavam estar de pé e ver o trem da esperança e da dignidade humana descarrilar. Ele estava lá por aqueles que prefeririam lutar a fugir (Não foi Bob Marley quem disse – aquele que luta e foge vive para lutar um outro dia?). CI, a carne e o sangue, pode ter morrido, CI, a Idéia, nunca esteve mais vivo. Isto pode ser visto na determinação e na resiliência dos estudantes da Universidade de Mimbo em manter incandescida suas ambições de liberdade acadêmica e a busca por melhora em equidade, dignidade e oportunidade para tudo e todos em conjunto.
Isto, tal como CI e outros que sacrificaram suas vidas sempre clamaram, requer certo calibre particular de liderança. Assim como CI enfatizou ad infinitum, qualquer líder, não importa o quão bom, precisam dos outros para compensar sua fraqueza. Um bom líder é aquele que encoraja os outros a liderar sem super dramatizar o fato de estar no poder. Ele ou ela é aquele que está cercado de pessoas com opiniões contraditórias de modo a se forçar a refletir, comparar e contrastar antes de se chegar a uma decisão.
O caminho à frente para a Universidade de Mimbo e para Mimbolândia, CI estressou naquilo que ninguém poderia ter imaginado que fora o seu último comentário nas páginas de O tambor falante, que foi por reconhecer que uma liderança não é exatamente sobre o líder. Trata-se do ambiente favorável que o líder cria para os experts em vários caminhos da vida e para todos aos quais ele oferece sua liderança. Um bom líder é aquele que consegue purgar-se da ilusão de que os chefes são necessariamente melhores que as pessoas abaixo deles. A modéstia é a chave principal para o sucesso em liderança, para que um bom líder imediatamente reconheça que ele ou ela precisa de apoio para liderar, e que um líder nunca lidera sozinho. “Liderança é mais um privilégio que um direito, uma vez que um líder é mais um servidor do que um senhor”, CI enfatizava, adicionando que apenas na Universidade de Mimbo e em Mimbolândia o contrário acontecia. “Com líderes que não têm nem modesta nem generosidade de espírito, que continuam no argumento da força e não na força do argumento, instituições secas e debilitadas, não pela falta de talento, mas pela falta de propósito”. A desgraça recai sobre o líder que tomar decisões sem consulta, e que exclui da liderança pessoas que têm muito talento porque ele ou ela tem medo de ser contradito ou por descobrir que nenhum individuo sozinho tem o monopólio de boa idéias.
“É difícil aconselhar um líder que pensa estar sempre certo”, argumentou CI, “há uma necessidade de criar circunstâncias nas quais outros líderes possam ser estimulados. Isso começa com a inclusão, com a sobriedade e a oportunidade para todos.” CI finaliza seu comentário com as seguintes palavras: “Nós sempre temos os líderes que merecemos ao conceder a indivíduos míopes o poder de silenciar a criatividade e a diferença que deveriam ser normais para edificar e fortalecer uma instituição, uma comunidade ou um país. A Universidade de Mimbo e o povo de Mimbolândia merecem um destino melhor do que a desgraça que se abateu sobre eles com perplexidade de uma mediocridade chamada liderança”.
* Francis Nyamnjoh é camaronês, romancista e Chefe de Publicações e Disseminação do Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África – (CODESRIA), Dakar. O livro Married but available está disponível em
** Traduzido por Alyxandra Gomes Nunes
Tagged under GovernaçãoReunidas em Maputo Moçambique no marco da V conferencia Internacional de la Via Campesina as mulheres do campo de diferentes continentes, realizamos nossa III Assembléia Mundial. Nos encontramos com a alegria em compartilhar o carinho das companheiras, a riqueza de nossas culturas diversas e a beleza das mulheres da África, Ásia, Europa e das Américas.
Tagged under GovernaçãoO Campo é nossa vida Terra que nos alimenta Rios que correm em nosso sangue. Somos a juventude da Via Campesina! Hoje declaramos o começo de um novo mundo. Viemos dos quatro cantos do mundo; Para nos unirmos no espírito da resistência; Para trabalharmos na construção da esperança; Para falarmos de nossas lutas; E aprender uns com o trabalho dos outros. Para nos inspirarmos pelas as canções de cada um, músicas e estorias; Para construirmos solidariedade entre nossos movimentos; Para unirmos como força poderosa por mudança social;
Tagged under GovernaçãoSomos gentes da terra, homens e mulheres que produzem os alimentos para o mundo. Temos o direito de continuarmos sendo camponeses e camponesas, e a responsabilidade de continuar alimentando a nossos povos. Cuidamos das sementes que são a vida, e para nós, o ato de produzir alimento é um ato de amor. A humanidade precisa de nós e nos negamos a desaparecer.
Tagged under GovernaçãoOs líderes de 26 países africanos reunidos na capital do Uganda, a cidade de Kampala, concordaram em criar uma nova zona de comércio livre intregrando a África Oriental e Austral. O objectivo é juntar três grupos regionais para criar o maior bloco económico do continente africano, com uma população combinada, em termos numéricos, quase idêntica à da União Europeia.
Tagged under GovernaçãoO principal partido da oposição no Zimbabue, o Movimento para a Mudança Democrática, anunciou que não vai participar na cimeira destinada a resolver o impasse relativo a um novo governo de partilha de poder. Falando numa conferência de imprensa na África do Sul, Tendai Biti, o secretário-geral do MDC, disse que o seu líder Morgan Tsvangirai não recebeu um passaporte pelo que não poderá participar.
Tagged under GovernaçãoO principal partido da oposição no Zimbabwe, o Movimento para a Mudança Democrática, MDC, pediu formalmente à SADC que substitua Thabo Mbeki como mediador das negociações em curso com a Zanu-FP. O MDC não sugere qualquer nome para o substituir mas diz ter perdido toda a confiança no ex-presidente sul-africano. Segundo o jornalista António Pina, colaborador da BBC na cidade sul-africana de Joanesburgo, o MDC diz estar iminente uma ruptura no processo negocial zimbabweano
Tagged under GovernaçãoA Guiné-Bissau vai beneficiar de um novo programa de assistência do FMI, anunciou esta quinta-feira em Bissau o Ministro das Financas, Issufo Sanhá. O programa trienal designado Facilidade da Redução da Pobreza e Crescimento, pode levar a Guiné-Bissau ao perdão de 90% da sua dívida externa, no quadro da chamada iniciativa HIPC – países altamente individados. O estabelecimento do novo programa é o resultado do bom desempenho do programa de assistência pós-conflito em curso desde Janeiro do corrente ano
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